carta.


Nina,

Eram dez horas da noite e você me ligou. Estava chorando, seu cachorro tinha morrido. Acho que ficamos uns vinte minutos no telefone, deveríamos ter ficado mais. Deveria ter pegado minhas chaves, vestido meu casaco e descido até a garagem. Não peguei, não fiz, não fui. Deixei-te sozinha, sozinha sem teu cachorro. Às vezes penso nele, muitas vezes em você. Foi minha culpa, busquei o sofrimento, até que o encontrei. Sofro calado, sofro seco. Vivo numa esperança imaginária descontente, tola. Fantasio te ter, cheirar teu toque, sentir tua voz, respirar teu suor. Faz cinco anos meu amor, tantos que te deixei.

Vi-te um mês atrás. Estava com ele, correndo. Estava garoando, lembro-me que meus pára-brisas estavam ligados. Você não me viu. Estava feliz, feliz na chuva. Ninguém fica feliz tomando chuva. Mas você estava. Terrivelmente satisfeita, ridiculamente alegre. Meu estômago virou, abri a porta para vomitar. Vômito e choro. Sequei.

Vivo parcialmente, vivo apático, vivo empurrado. Estou esperando, vivo para te esperar. Meu desejo tornou-se meu futuro, minha felicidade. Você.

Nina, menti. Vi-te uma semana atrás. Estava sozinha, linda, andando. Gritei seu nome, você não me viu. Corri. Não te encostei não te abracei. Eu tentei, prometo que tentei. Eu nunca poderia te alcançar, nunca chegaria. Meu futuro morreu Nina, nosso futuro. Desculpe-me. Só conseguiria viver para você. Não chore, te quis. Foi você que me deixou vivo por mais cinco anos.

Não mais aqui, mas sempre seu,
Teo.