duas cartas.



Nina

Não estou vazia. Meu corpo não é oco. Queria que ele fosse. Poderia enchê-lo de qualquer coisa, qualquer coisa que não seja isso. Quando você foi embora não me disse o que levaria. Deixou o resto, o escondido, o que era ignorado. Agora estou amarga, nem doce, nem salgada. Eu quero ar no meu corpo, quero que meu sangue me esquente. Meu coração se acomodou ao meu estado, ele não bate nem muito forte, nem muito fraco, apenas fica lá, acomodado. Rendeu-se à sua ausência.
Quando foi que passamos a sonhar separados? Quando foi que me esqueci de te beijar o nariz? Quando paramos de desejar o amor? Desculpe-me por ter confundido as palavras, os atos, a dança. Não sei se te desejo sempre, te quero agora, quero seu corpo na minha cama, quero teu sorriso no meu colo. Quero que você salgue meu corpo, o preencha. Talvez seja melhor assim, tua ausência, tua falta. Demorei a entender que sofro por sua ausência, não pelo seu amor. Sofro pela minha solidão, não pelo meu querer. Aprendi a viver com você. Choro sozinha.
Desculpe-me por dizer que te amava. Não sabia o que era amor. Nunca fui mentirosa, fui ingênua. Eu era nova, você também. Não sei se algum dia te amei, não sei se amo agora. Gostava da tua pele quente na minha fria, do seu cabelo escuro no meu claro. Achava que nunca poderia viver sem tua voz. Achava que nunca poderia dançar sozinha. Era insegura, tinha medo. Agora estou só, me sinto metade.

Teo

Seu corpo estava apoiado na janela. O verde velho descascado combinava com sua blusa vinho. A alça direita caía no seu ombro e você a levantava de tempos em tempos. Queria te desenhar, te transformar em linhas e escrever uma música. Eu amei. Amei cada onda do seu corpo, cada cheiro do seu pescoço.
Uma noite me tranquei no banheiro e chorei agachado no chão. Você dormia, linda, sem cobertas. Eu sabia que nunca iria me amar. Decidi te deixar naquele momento, às três e meia da manhã, numa madrugada de terça-feira. Queria entrar no seu corpo, queria trocar seu coração. Gritava em silêncio.
Desculpe-me por te amar demais, Nina. Amei por mim e por você. Suguei seus sentimentos. Acabei por me matar por inteiro. Joguei fora tudo que sentia. Sou vazio.