.Diez horas.
“Estou esperando a causalidade da minha vida...a maior”. Repeti a frase do filme. Ele riu, apesar de eu ter falado sem sorriso qualquer no rosto. Há dez anos ele ria do meu romantismo, dizia serem bobagens emocionais enquanto eu ainda acreditava me apaixonar três vezes, como minha avó me dizia – “Neta, quando chegar ao terceiro, agarra, porque será o último”. E sendo assim, acreditava, só não conseguia contá-las pois não sabia o que era paixão e tampouco, o que era amor. Sempre achei que paixão fosse algo intenso, parecido com uma crise constante de emoções com direitos a explosões sentimentais, altos e baixos. E o amor... bem, o amor é aquele que dizem vir depois da paixão. Podemos amar sem ter nos apaixonado? Já amei muitas pessoas, mas não com paixão. Era só amor, amor paterno, materno, de amigos, de cachorro... mas não amei àquelas por quem me apaixonei.
Ando as pressas por Palermo Viejo, nervosa e ao mesmo tempo um bocado ansiosa e feliz. Não sentia há muito tempo meu coração bater tão rápido. A praça retangular está vazia, alguns homens mais velhos sentados jogando conversa fora, um casal portenho se beijando no muro, uma criança gritando do outro lado. Atravesso a rua correndo, deixo minha malha cair na calçada. Pego-a e paro para comprar um maço de cigarros já logo acendendo o primeiro do dia. Meu celular toca. Desligo. Continuo andando até chegar na praça redonda. Passo em frente à pequena livraria que tanto gosto. Meu lugar favorito nessa cidade. Ela é do tamanho exato, nem muito grande, nem muito pequena. Nos fundos, um jardim de inverno com mesinhas de ferro brancas e almofadas coloridas. Muitas tardes de cafés, livros e cigarros. Lembro-me dos meus cafés com livros, com cigarros, e com ele. Foram muitos. Durante alguns anos. Cafés por todo o mundo, em diversos lugares. Tinha o nosso predileto, na nossa cidade, bem lá no meio, fechadinho com vidros, estava sempre aberto. Sofás marrons, revistas e jornais, sempre um jazz ao fundo. Foi nosso café. Nossa mesa vinte e um. A nossa. Só nossa. De dia e de noite.
Já são dez horas e meia. Vou chegar atrasada, para não perder o costume. Tento correr de salto mas ainda não adquiri essa habilidade. Tenho inveja de quem consegue, de quem já nasceu com saltos nos pés. Ele não gosta de saltos. Acha-os desnecessários. Dizia que achava estranho me beijar quando estava de saltos, que já tinha se acostumado com minha altura. Eu gosto, me sinto mulher. Gosto também de batom e unhas vermelhos... não sei se ele ainda gosta.
Um gato preto passa correndo ao meu lado. Ele tinha um gato, esnobe e carente ao mesmo tempo. Adorava o gato dele. Eu tinha um cachorro que morreu há quatro anos. Agora tenho um gato também. Cinza e manhoso. Passa o dia no terraço olhando a rua, só observando as pessoas caminhando três andares abaixo. Todas as noites, quando chego em casa, ele se esfrega na minha perna até se acomodar em cima dos meus pés.
São dez e quarenta... estou quinze minutos atrasada. Deveria ter pegado um táxi, mas escolhi ir andando e respirando. Preciso respirar... não respiro há dois anos. Não sinto há dois anos. Lembro-me de um livro que li anos atrás... "Anda, anda me morderes o coração". Nunca fui mordida. Nem por ele. Deveria ter ouvido minha avó e esperado pelo terceiro. Casei com o segundo. Casei e depois de um ano de paixão, perdi meu coração.
.Once horas.
Ele está com uma camiseta cinza, sentado de costas. Sento à sua frente sem lhe dar um abraço. Olho seu rosto, exatamente como eu lembrava. A barba por fazer, o sorriso grande, o cabelo bagunçado caído de lado. Debruço-me sobre a mesa e lhe dou meu rosto e meus braços. Um dia é muito pouco para o que temos que falar. Quero lhe contar meus dias, minha vida naquela cidade que eu amo tanto, como eu acordo, como eu durmo, como eu como, como eu respiro, como eu sinto. Quero saber tudo sobre sua vida. Dois expessos, duas águas e um pedaço de bolo. Quero dez cafés, dez águas e um bolo inteiro. Quero que você volte a me conhecer, conhecer minhas manias e meus jeitos. Quero voltar a decorar seu andar e entender seus sorrisos. Quero que voltemos a nos embebedar em qualquer boteco, correr na chuva, ouvir jazz na rua, projetar em guardanapos amassados, assistir filmes dormindo. Quero sair para dançar, andar rápido, ler deitados na praia, passar a mão no seu cabelo até pegar no sono. Isso tudo não cabe em um dia. Quero me lembrar de como eu era, de como nós fomos, de como você me olhava querendo me enxergar.
Ele me conta da sua vida, de seu trabalho, de sua noiva. Diz que depois de dez anos acha que está descobrindo como amar. Fico feliz por ele. Sempre disse para ele amar e sofrer, se permitir. Eu conto sobre a minha, meu trabalho, meus planos, meu apartamento novo, meu marido. “Casei apaixonada. O segundo. O primeiro ano foi de alegria, muitas festas, viagens a dois. No segundo, a paixão foi acabando. Agora, sinto carinho. Não há paixão, não espero por ele à noite.”
Pagamos a conta e saímos andando em direção ao Malba. Trabalhei lá no meu primeiro ano em Buenos Aires. Adoro tudo naquele museu, todos seus quadros, seu elevador na caixa de vidro, seus mezaninos, seu restaurante e aquela livraria. Passava minhas horas livres devorando seus livros e me enchendo de chá preto com leite. Andamos rápido, sem precisar. Sempre. Desde o começo. Lembro que eu dizia que minhas pernas eram maiores. Impossível. Ele dizia que eu era esbelta, por isso andava rápido. Eu gostava de andar de mãos dadas, para dizer para o mundo que ele era meu. Ele gostava de colocar seu braço esquerdo em volta do meu ombro. Eu nunca soube coordenar meus passos para andar assim... mas nunca disse isso a ele. Ele gostava de beijar nos sinaleiros, eu não gostava, achava que alguém ia se aproveitar para roubar minha bolsa. Se eu soubesse como isso era bom, eu o teria beijado em todos os sinaleiros de São Paulo.
Uma praça. Nem precisamos falar nada, só seguimos até a árvore mais próxima. Sentamos de frente um para o outro. Nunca sentávamos de frente, deitávamos e ele apoiava sua cabeça na minha barriga. Ele me conta de um projeto de uma igreja que tinha terminado há três meses. Nunca imaginei que ele projetaria uma igreja. Ele diz acreditar em Deus. Ele nunca acreditou. Eu sempre quis acreditar, mas isso nunca aconteceu.
.Doce horas.
As amoras estão nascendo. Amo amoras. Lembro de um escritório em que eu trabalhei que tinha uma amoreira. Enchíamos baldes de amoras em outubro... minhas mãos viviam manchadas. Acho que nunca comi amora com ele.
Ele gostava de cozinhar. Eu gostava do fato de um homem estar cozinhando para mim. Hoje cozinho, tive que aprender. Gostava de cozinhar para meu marido, agora prefiro sair para jantar.
Ele se espreguiça, abre a boca. Eu tiro minhas sandálias amarelas. Meu vestido não me deixa sentar confortável. Ele é vermelho, ando louca por vermelho. Ando apaixonada pelas flores também. Cravos. Em casa tem vaso de cravos todos os dias, nunca me esqueço de comprá-los. Meu marido me trazia flores todas sextas-feiras. Hoje ele me compra no meu aniversário e nos dias especiais. Passei a comprar-las uma vez por semana, assim, não me desacostumo.
Fecho os olhos e respiro fundo. Ele me diz que sua noiva ama rosas colombianas. Não gosto de rosas. Ele as compra para ela. Ele nunca me deu flores. Ganhei uma vez uma rosa colombiana de um namorado. Colombiano.
Bate um vento forte, coloco minha malha. Nos levantamos e continuamos andando. Dessa vez, pela primeira vez, andamos devagar, sem pressa de chegar. De vez em quando, nossos braços se encostam. Eles querem ficar lá. Deixamos um pouco e os afastamos. Enfio minha mão no meu bolso para não acontecer de novo. Paramos num sinaleiro e ele me pede um abraço. Abraça-me forte – “Quero saber se ainda sente”. Sinto, não sei o que, mas sinto. Não pergunto de volta, não quero saber. Tiro meus braços e agora coloco as duas mãos nos bolsos. Não quero sentir sua pele na minha. Não quero sentir. Sentir nada.
.Trece horas y treinta minutos.
Chegamos em frente ao Malba. Subo as escadas correndo. Entramos e fomos direto à Tarsila. Gosto de olhar e lembrar do meu país. Ele não sente saudades, mora lá. Ele diz que ainda quer se mudar, morar no México talvez, se tudo continuar bem com sua noiva. Ela é mexicana. Ele sempre gostou de mulheres que falam espanhol e se vestem com cores. Eu sempre gostei de falar espanhol e de me vestir colorida. Ele gostava disso em mim.
Na área de exposições temporárias, lá em baixo, uma exposição espanhola. Quadros coloridos de dança flamenca com castanholas e cajón. Comecei a dançar flamenco há quatro anos. Falava, enquanto eu ainda não dançava, que um dia dançaria para ele. Ele acreditava.
Subimos até a livraria. Acho um livro do Barragán. Tento convencê-lo a comprar e passar a gostar. Ele não compra. Eu compro um de móveis de madeira. Sempre quis trabalhar com móveis. Hoje trabalho com cenografia de desfiles. Gosto.
Sentamos no restaurante para almoçar. Eu peço uma salada e carne, ele pede uma massa. Tomamos suco de laranja. Ele ainda adora, eu apenas gosto. Conversamos agora sobre trabalho. Às vezes me sinto conversando com um desconhecido. Ele mudou um pouco seu jeito de falar. Fala mais devagar. Mas continua olhando para o meu rosto quando ficamos em silêncio. Odeio isso. Sinto-me constrangida. Olho para todos os lados procurando alguma coisa para prestar atenção. Pedimos dois cafés. Tomei o meu fumando o meu segundo cigarro. Ele tomou o dele em silêncio. Pagamos a conta e saímos.
.Catorce horas y cuarenta y cinco minutos.
Andamos em direção a Recoleta. Quero levá-lo ao Centro Cultural e à feira. Podemos passar pelo Museu de Belas Artes também. Na ponte um senhor toca sax. Sinto pela segunda vez. Paramos e ficamos lá, cheios de prazer. Queria parar o relógio nesse momento. Seria nosso momento número um, aquele em que nada poderia acontecer para melhorar, já estava completo.
Passamos pela outra praça até chegar na praça da Recoleta. Eu digo que estou infeliz com meu casamento, que me acomodei, que quero voltar a viver. Ele me abraça novamente e diz que eu nasci para ser romântica, que eu não posso perder isso, esquecer, senão virarei outra pessoa. Vamos até uma banca de chapéus. Coloco um verde e pequeno, ele me enquadra com os dedos “quero guardar essa foto na memória para sempre”. Meus olhos enchem, olho para baixo para disfarçar e mudo de assunto.
Entramos no Centro. Duas crianças brincam do nosso lado. Sempre quis ter filhos, dois, uma menina e um menino. Ele nunca quis. Agora quer. Eu já não sei se quero mais.
Vimos duas exposições, uma de vídeo, uma de telas. Não gostei de nenhuma. Ele gostou da de vídeos. Era sobre democracia extremista. Acho o vídeo uma babaquice, ele se interessa. Discutimos sobre isso por alguns minutos. Sempre discutimos. Sempre discordamos. Gostamos de discordar, só por discordar, só para discutir, só para passar mais tempo conversando.
.Quince horas y treinta y cinco minutos.
Saímos do Centro e andamos até a esquina. Continuamos até o centro da cidade. Quero levá-lo até um sebo que tanto gosto. Ele gosta de um autor argentino, Borges. Nós sempre gostamos de romances, ele de romances não românticos, eu de romances de fazer chorar. Agora não choro mais.
Acho o sebo. Entramos, ele olha. Abre um sorriso imenso e vai logo fuçar os muitos livros divididos em grandes caixas velhas. começo a espirrar. Leio na parede “Y por que? Por que son más tristes.”. Gostei. Ele não gosta. Nunca gostou de tristezas. Eu pensava que os meus sentimentos já eram suficientes para nós dois. Sentamos no chão para folhear alguns. Sempre amei comprar livros. O primeiro livro que comprei para ele chamava “Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios”. Quando lhe dei esse livro não nos víamos há dez meses. Tudo o que eu queria era ouvir alguma palavra de sua boca, qualquer palavra.
. Diecisiete horas.
Andamos até um barzinho de jazz. Sentamos numa mesa nos fundos. O bar é todo colorido, e a garota que serve é toda sorrisos. Toca Chet Baker. Quero dançar com ele, mas nunca pediria. Quero pegar na sua mão, mas nunca poderia. Pedimos uma garrafa de vinho. Concha y Toro, como pedíamos há dez anos. Lembrei das nossas garrafas, em qualquer bar, restaurante, na areia da praia, dentro de um quarto carioca, numa praça curitibana, na piscina da fazenda, com taças ou sem. Ele ri, diz que nós sempre acabamos em vinho. Eu acendo meu terceiro cigarro. Pergunto se ele é feliz. “Se eu sou feliz? Acho que sim... tenho uma vida calma, gosto das pessoas que eu convivo, gosto do meu trabalho”. Fico feliz e ao mesmo tempo triste. Como ele poderia ser feliz durante esses cinco anos sem me ver? Logo apago esse pensamento egoísta. Eu sou egoísta de vez em quando. Ele odeia egoísmo. Eu odeio gostar de discutir com ele. Eu odeio nesse momento tudo nele, seu rosto, seus gestos, como ele fala, como ele olha para mim, como ele batuca sem coordenação na mesa, como ele ri, como ele arranha seu espanhol para pedir uma água. Eu odeio não odiar nada disso. Fecho a cara, sem querer fechar, e ele me pede um sorriso. “Não posso sorrir para você, e você não pode sorrir para mim.”. Ele solta uma gargalhada e diz que quando pararmos de sorrir estará tudo acabado.
Agora conversamos sobre livros, filmes, exposições e shows que fizeram parte de nós nesses últimos anos. Aí não discutimos, concordamos com tudo. Amamos cada gosto, um do outro, e sempre queríamos compartilhar tudo. Ele fala que sua noiva não gosta de ler, eu digo que o meu marido não gosta de jazz. Ele canta “...why won't somebody send a tender blue boyto cheer up little girl blue”. Não consigo mais fechar meu rosto.
.Vinte horas.
Estamos um pouco bêbados. Daqui a duas horas ele vai embora, voltar para sua vida e eu para a minha. Levo-o até seu hotel. Andamos em silêncio, já com saudades. Ele encosta seu braço no meu, eu deixo. Sinto, pela terceira vez. Calados, chegamos no hall do hotel, ainda no centro. Vou dar-lhe um abraço e ele me pede para subir enquanto arruma suas coisas. Subimos até o quarto. Duzentos e quinze, segundo andar. É um quarto como qualquer outro, mesa, cama de casal, frigobar, banheiro, armários e uma grande janela com uma vista dispensável. Sento na cadeira, ele entra no banho. Ligo o rádio, toca Ella. “É um dia de jazz!” grita do banheiro com o chuveiro ligado. Espero... Ele sai com uma toalha amarrada na cintura e anda até mim. Pega nas minhas mãos e me puxa. Fico de pé. “Não podemos deixar a Ella triste, temos que dançar. Minha noiva não dança comigo, te contei? Ela não dança, não usa vestidinhos coloridos, não gosta de cravos, não lê livros em sebos e não toma café”.
Coloco meus braços em volta de suas costas e ele me morde o pescoço. A música acaba. Outra começa, agora desconhecida. Sinto seu cheiro, o mesmo, como sempre foi. Aquele cheiro dele, que eu sentia sempre quando estávamos deitados, quando ele me abraçava, tirava minha roupa e beijava todo meu corpo. Pego no seu cabelo molhado, ele aperta minhas costas colocando sua boca no meu ouvido -
“me deixa morder teu coração”.
“Estou esperando a causalidade da minha vida...a maior”. Repeti a frase do filme. Ele riu, apesar de eu ter falado sem sorriso qualquer no rosto. Há dez anos ele ria do meu romantismo, dizia serem bobagens emocionais enquanto eu ainda acreditava me apaixonar três vezes, como minha avó me dizia – “Neta, quando chegar ao terceiro, agarra, porque será o último”. E sendo assim, acreditava, só não conseguia contá-las pois não sabia o que era paixão e tampouco, o que era amor. Sempre achei que paixão fosse algo intenso, parecido com uma crise constante de emoções com direitos a explosões sentimentais, altos e baixos. E o amor... bem, o amor é aquele que dizem vir depois da paixão. Podemos amar sem ter nos apaixonado? Já amei muitas pessoas, mas não com paixão. Era só amor, amor paterno, materno, de amigos, de cachorro... mas não amei àquelas por quem me apaixonei.
Ando as pressas por Palermo Viejo, nervosa e ao mesmo tempo um bocado ansiosa e feliz. Não sentia há muito tempo meu coração bater tão rápido. A praça retangular está vazia, alguns homens mais velhos sentados jogando conversa fora, um casal portenho se beijando no muro, uma criança gritando do outro lado. Atravesso a rua correndo, deixo minha malha cair na calçada. Pego-a e paro para comprar um maço de cigarros já logo acendendo o primeiro do dia. Meu celular toca. Desligo. Continuo andando até chegar na praça redonda. Passo em frente à pequena livraria que tanto gosto. Meu lugar favorito nessa cidade. Ela é do tamanho exato, nem muito grande, nem muito pequena. Nos fundos, um jardim de inverno com mesinhas de ferro brancas e almofadas coloridas. Muitas tardes de cafés, livros e cigarros. Lembro-me dos meus cafés com livros, com cigarros, e com ele. Foram muitos. Durante alguns anos. Cafés por todo o mundo, em diversos lugares. Tinha o nosso predileto, na nossa cidade, bem lá no meio, fechadinho com vidros, estava sempre aberto. Sofás marrons, revistas e jornais, sempre um jazz ao fundo. Foi nosso café. Nossa mesa vinte e um. A nossa. Só nossa. De dia e de noite.
Já são dez horas e meia. Vou chegar atrasada, para não perder o costume. Tento correr de salto mas ainda não adquiri essa habilidade. Tenho inveja de quem consegue, de quem já nasceu com saltos nos pés. Ele não gosta de saltos. Acha-os desnecessários. Dizia que achava estranho me beijar quando estava de saltos, que já tinha se acostumado com minha altura. Eu gosto, me sinto mulher. Gosto também de batom e unhas vermelhos... não sei se ele ainda gosta.
Um gato preto passa correndo ao meu lado. Ele tinha um gato, esnobe e carente ao mesmo tempo. Adorava o gato dele. Eu tinha um cachorro que morreu há quatro anos. Agora tenho um gato também. Cinza e manhoso. Passa o dia no terraço olhando a rua, só observando as pessoas caminhando três andares abaixo. Todas as noites, quando chego em casa, ele se esfrega na minha perna até se acomodar em cima dos meus pés.
São dez e quarenta... estou quinze minutos atrasada. Deveria ter pegado um táxi, mas escolhi ir andando e respirando. Preciso respirar... não respiro há dois anos. Não sinto há dois anos. Lembro-me de um livro que li anos atrás... "Anda, anda me morderes o coração". Nunca fui mordida. Nem por ele. Deveria ter ouvido minha avó e esperado pelo terceiro. Casei com o segundo. Casei e depois de um ano de paixão, perdi meu coração.
.Once horas.
Ele está com uma camiseta cinza, sentado de costas. Sento à sua frente sem lhe dar um abraço. Olho seu rosto, exatamente como eu lembrava. A barba por fazer, o sorriso grande, o cabelo bagunçado caído de lado. Debruço-me sobre a mesa e lhe dou meu rosto e meus braços. Um dia é muito pouco para o que temos que falar. Quero lhe contar meus dias, minha vida naquela cidade que eu amo tanto, como eu acordo, como eu durmo, como eu como, como eu respiro, como eu sinto. Quero saber tudo sobre sua vida. Dois expessos, duas águas e um pedaço de bolo. Quero dez cafés, dez águas e um bolo inteiro. Quero que você volte a me conhecer, conhecer minhas manias e meus jeitos. Quero voltar a decorar seu andar e entender seus sorrisos. Quero que voltemos a nos embebedar em qualquer boteco, correr na chuva, ouvir jazz na rua, projetar em guardanapos amassados, assistir filmes dormindo. Quero sair para dançar, andar rápido, ler deitados na praia, passar a mão no seu cabelo até pegar no sono. Isso tudo não cabe em um dia. Quero me lembrar de como eu era, de como nós fomos, de como você me olhava querendo me enxergar.
Ele me conta da sua vida, de seu trabalho, de sua noiva. Diz que depois de dez anos acha que está descobrindo como amar. Fico feliz por ele. Sempre disse para ele amar e sofrer, se permitir. Eu conto sobre a minha, meu trabalho, meus planos, meu apartamento novo, meu marido. “Casei apaixonada. O segundo. O primeiro ano foi de alegria, muitas festas, viagens a dois. No segundo, a paixão foi acabando. Agora, sinto carinho. Não há paixão, não espero por ele à noite.”
Pagamos a conta e saímos andando em direção ao Malba. Trabalhei lá no meu primeiro ano em Buenos Aires. Adoro tudo naquele museu, todos seus quadros, seu elevador na caixa de vidro, seus mezaninos, seu restaurante e aquela livraria. Passava minhas horas livres devorando seus livros e me enchendo de chá preto com leite. Andamos rápido, sem precisar. Sempre. Desde o começo. Lembro que eu dizia que minhas pernas eram maiores. Impossível. Ele dizia que eu era esbelta, por isso andava rápido. Eu gostava de andar de mãos dadas, para dizer para o mundo que ele era meu. Ele gostava de colocar seu braço esquerdo em volta do meu ombro. Eu nunca soube coordenar meus passos para andar assim... mas nunca disse isso a ele. Ele gostava de beijar nos sinaleiros, eu não gostava, achava que alguém ia se aproveitar para roubar minha bolsa. Se eu soubesse como isso era bom, eu o teria beijado em todos os sinaleiros de São Paulo.
Uma praça. Nem precisamos falar nada, só seguimos até a árvore mais próxima. Sentamos de frente um para o outro. Nunca sentávamos de frente, deitávamos e ele apoiava sua cabeça na minha barriga. Ele me conta de um projeto de uma igreja que tinha terminado há três meses. Nunca imaginei que ele projetaria uma igreja. Ele diz acreditar em Deus. Ele nunca acreditou. Eu sempre quis acreditar, mas isso nunca aconteceu.
.Doce horas.
As amoras estão nascendo. Amo amoras. Lembro de um escritório em que eu trabalhei que tinha uma amoreira. Enchíamos baldes de amoras em outubro... minhas mãos viviam manchadas. Acho que nunca comi amora com ele.
Ele gostava de cozinhar. Eu gostava do fato de um homem estar cozinhando para mim. Hoje cozinho, tive que aprender. Gostava de cozinhar para meu marido, agora prefiro sair para jantar.
Ele se espreguiça, abre a boca. Eu tiro minhas sandálias amarelas. Meu vestido não me deixa sentar confortável. Ele é vermelho, ando louca por vermelho. Ando apaixonada pelas flores também. Cravos. Em casa tem vaso de cravos todos os dias, nunca me esqueço de comprá-los. Meu marido me trazia flores todas sextas-feiras. Hoje ele me compra no meu aniversário e nos dias especiais. Passei a comprar-las uma vez por semana, assim, não me desacostumo.
Fecho os olhos e respiro fundo. Ele me diz que sua noiva ama rosas colombianas. Não gosto de rosas. Ele as compra para ela. Ele nunca me deu flores. Ganhei uma vez uma rosa colombiana de um namorado. Colombiano.
Bate um vento forte, coloco minha malha. Nos levantamos e continuamos andando. Dessa vez, pela primeira vez, andamos devagar, sem pressa de chegar. De vez em quando, nossos braços se encostam. Eles querem ficar lá. Deixamos um pouco e os afastamos. Enfio minha mão no meu bolso para não acontecer de novo. Paramos num sinaleiro e ele me pede um abraço. Abraça-me forte – “Quero saber se ainda sente”. Sinto, não sei o que, mas sinto. Não pergunto de volta, não quero saber. Tiro meus braços e agora coloco as duas mãos nos bolsos. Não quero sentir sua pele na minha. Não quero sentir. Sentir nada.
.Trece horas y treinta minutos.
Chegamos em frente ao Malba. Subo as escadas correndo. Entramos e fomos direto à Tarsila. Gosto de olhar e lembrar do meu país. Ele não sente saudades, mora lá. Ele diz que ainda quer se mudar, morar no México talvez, se tudo continuar bem com sua noiva. Ela é mexicana. Ele sempre gostou de mulheres que falam espanhol e se vestem com cores. Eu sempre gostei de falar espanhol e de me vestir colorida. Ele gostava disso em mim.
Na área de exposições temporárias, lá em baixo, uma exposição espanhola. Quadros coloridos de dança flamenca com castanholas e cajón. Comecei a dançar flamenco há quatro anos. Falava, enquanto eu ainda não dançava, que um dia dançaria para ele. Ele acreditava.
Subimos até a livraria. Acho um livro do Barragán. Tento convencê-lo a comprar e passar a gostar. Ele não compra. Eu compro um de móveis de madeira. Sempre quis trabalhar com móveis. Hoje trabalho com cenografia de desfiles. Gosto.
Sentamos no restaurante para almoçar. Eu peço uma salada e carne, ele pede uma massa. Tomamos suco de laranja. Ele ainda adora, eu apenas gosto. Conversamos agora sobre trabalho. Às vezes me sinto conversando com um desconhecido. Ele mudou um pouco seu jeito de falar. Fala mais devagar. Mas continua olhando para o meu rosto quando ficamos em silêncio. Odeio isso. Sinto-me constrangida. Olho para todos os lados procurando alguma coisa para prestar atenção. Pedimos dois cafés. Tomei o meu fumando o meu segundo cigarro. Ele tomou o dele em silêncio. Pagamos a conta e saímos.
.Catorce horas y cuarenta y cinco minutos.
Andamos em direção a Recoleta. Quero levá-lo ao Centro Cultural e à feira. Podemos passar pelo Museu de Belas Artes também. Na ponte um senhor toca sax. Sinto pela segunda vez. Paramos e ficamos lá, cheios de prazer. Queria parar o relógio nesse momento. Seria nosso momento número um, aquele em que nada poderia acontecer para melhorar, já estava completo.
Passamos pela outra praça até chegar na praça da Recoleta. Eu digo que estou infeliz com meu casamento, que me acomodei, que quero voltar a viver. Ele me abraça novamente e diz que eu nasci para ser romântica, que eu não posso perder isso, esquecer, senão virarei outra pessoa. Vamos até uma banca de chapéus. Coloco um verde e pequeno, ele me enquadra com os dedos “quero guardar essa foto na memória para sempre”. Meus olhos enchem, olho para baixo para disfarçar e mudo de assunto.
Entramos no Centro. Duas crianças brincam do nosso lado. Sempre quis ter filhos, dois, uma menina e um menino. Ele nunca quis. Agora quer. Eu já não sei se quero mais.
Vimos duas exposições, uma de vídeo, uma de telas. Não gostei de nenhuma. Ele gostou da de vídeos. Era sobre democracia extremista. Acho o vídeo uma babaquice, ele se interessa. Discutimos sobre isso por alguns minutos. Sempre discutimos. Sempre discordamos. Gostamos de discordar, só por discordar, só para discutir, só para passar mais tempo conversando.
.Quince horas y treinta y cinco minutos.
Saímos do Centro e andamos até a esquina. Continuamos até o centro da cidade. Quero levá-lo até um sebo que tanto gosto. Ele gosta de um autor argentino, Borges. Nós sempre gostamos de romances, ele de romances não românticos, eu de romances de fazer chorar. Agora não choro mais.
Acho o sebo. Entramos, ele olha. Abre um sorriso imenso e vai logo fuçar os muitos livros divididos em grandes caixas velhas. começo a espirrar. Leio na parede “Y por que? Por que son más tristes.”. Gostei. Ele não gosta. Nunca gostou de tristezas. Eu pensava que os meus sentimentos já eram suficientes para nós dois. Sentamos no chão para folhear alguns. Sempre amei comprar livros. O primeiro livro que comprei para ele chamava “Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios”. Quando lhe dei esse livro não nos víamos há dez meses. Tudo o que eu queria era ouvir alguma palavra de sua boca, qualquer palavra.
. Diecisiete horas.
Andamos até um barzinho de jazz. Sentamos numa mesa nos fundos. O bar é todo colorido, e a garota que serve é toda sorrisos. Toca Chet Baker. Quero dançar com ele, mas nunca pediria. Quero pegar na sua mão, mas nunca poderia. Pedimos uma garrafa de vinho. Concha y Toro, como pedíamos há dez anos. Lembrei das nossas garrafas, em qualquer bar, restaurante, na areia da praia, dentro de um quarto carioca, numa praça curitibana, na piscina da fazenda, com taças ou sem. Ele ri, diz que nós sempre acabamos em vinho. Eu acendo meu terceiro cigarro. Pergunto se ele é feliz. “Se eu sou feliz? Acho que sim... tenho uma vida calma, gosto das pessoas que eu convivo, gosto do meu trabalho”. Fico feliz e ao mesmo tempo triste. Como ele poderia ser feliz durante esses cinco anos sem me ver? Logo apago esse pensamento egoísta. Eu sou egoísta de vez em quando. Ele odeia egoísmo. Eu odeio gostar de discutir com ele. Eu odeio nesse momento tudo nele, seu rosto, seus gestos, como ele fala, como ele olha para mim, como ele batuca sem coordenação na mesa, como ele ri, como ele arranha seu espanhol para pedir uma água. Eu odeio não odiar nada disso. Fecho a cara, sem querer fechar, e ele me pede um sorriso. “Não posso sorrir para você, e você não pode sorrir para mim.”. Ele solta uma gargalhada e diz que quando pararmos de sorrir estará tudo acabado.
Agora conversamos sobre livros, filmes, exposições e shows que fizeram parte de nós nesses últimos anos. Aí não discutimos, concordamos com tudo. Amamos cada gosto, um do outro, e sempre queríamos compartilhar tudo. Ele fala que sua noiva não gosta de ler, eu digo que o meu marido não gosta de jazz. Ele canta “...why won't somebody send a tender blue boyto cheer up little girl blue”. Não consigo mais fechar meu rosto.
.Vinte horas.
Estamos um pouco bêbados. Daqui a duas horas ele vai embora, voltar para sua vida e eu para a minha. Levo-o até seu hotel. Andamos em silêncio, já com saudades. Ele encosta seu braço no meu, eu deixo. Sinto, pela terceira vez. Calados, chegamos no hall do hotel, ainda no centro. Vou dar-lhe um abraço e ele me pede para subir enquanto arruma suas coisas. Subimos até o quarto. Duzentos e quinze, segundo andar. É um quarto como qualquer outro, mesa, cama de casal, frigobar, banheiro, armários e uma grande janela com uma vista dispensável. Sento na cadeira, ele entra no banho. Ligo o rádio, toca Ella. “É um dia de jazz!” grita do banheiro com o chuveiro ligado. Espero... Ele sai com uma toalha amarrada na cintura e anda até mim. Pega nas minhas mãos e me puxa. Fico de pé. “Não podemos deixar a Ella triste, temos que dançar. Minha noiva não dança comigo, te contei? Ela não dança, não usa vestidinhos coloridos, não gosta de cravos, não lê livros em sebos e não toma café”.
Coloco meus braços em volta de suas costas e ele me morde o pescoço. A música acaba. Outra começa, agora desconhecida. Sinto seu cheiro, o mesmo, como sempre foi. Aquele cheiro dele, que eu sentia sempre quando estávamos deitados, quando ele me abraçava, tirava minha roupa e beijava todo meu corpo. Pego no seu cabelo molhado, ele aperta minhas costas colocando sua boca no meu ouvido -
“me deixa morder teu coração”.
