"Nossas histórias divididas dialogam entre si". Ela leu e dobrou a folha em quatro, acompanhando as marcas já nela feitas. Durante suas vidas tiveram encontros e desencontros, concretos e abstratos, de lugares e de sentimentos. Compreender seu amor, numa hora, lhe levava a fugir, noutra, a se aproximar. Sempre acreditou que ele vivia com ela, e ela, por outro lado, para ele. "Existir a que será que se destina", já dizia Caetano. Nesse momento, existia para aquela próxima hora, em que desceria do ônibus e andaria ao encontro dele. Fazia meses que inventava diálogos, conversas para enganar a solidão dos caminhos em que andava sem chegar a lugar algum. Sua vida com ele era uma brincadeira bem quente, que podia terminar de uma hora para outra, chegar ao final em qualquer momento. Acabará há um ano, e agora, não sabia mais. Durante doze meses sonhava com ele. Os sonhos não envelhecem.
Embaixo da folha marcada, olhava uma fotografia. A fotografia do beijo que não sentia mais. Aquele que ficou pendurado, que não voltara para ser engolido. Se tivessem tido mais tempo, mais horas para se juntar, se seus cafés tivessem tido mais gosto e suas vozes mais som, talvez não tivesse o esquecido. Se o medo não a fizesse parar, talvez saísse correndo para lhe roubar um beijo assim que chegasse, lá mesmo, na plataforma. Porém, receia em estragar aquela história, em não recuperar o mesmo toque, de modificar a figura. Não quer ser atingida no peito, beijá-lo e estragar o bocadinho de memória que ainda guarda. Talvez ela estivesse presa e precisasse de liberdade, talvez essa liberdade fosse ele.
Ela pensa numa metáfora para dizer o quanto já gostou dele. Tenta escrever algo, em escrever palavras bonitas, em transformar seus olhos em letras. Não consegue. Não tem palavras. Pensa em círculos, em como suas vidas rodaram continuamente. Acordava enquanto ele dormia, chorava enquanto ele sorria, encontrava enquanto ele se desencontrava. Por isso era vermelha, e ele, era azul. Poderia escrever sobre ciclos, sobre cores, sobre formas... Não, fugiram palavras. Ela queria enrolar as letras em palavras sonhadas e desenhar uma bela melodia. Se ela soubesse escrever poemas, escreveria um para ele.
Pensa que nesse tempo acreditou, mas viveu simultaneamente, sem estar à espera. Não acreditava também que ele poderia a querer como antes, mas de qualquer jeito, sempre havia um bocadinho de querer ser supreendida. Agora esperará, e não pensará em mais nada. Irá traçar um destino que não existe, e será descontentemente contente. Desenhará uma linha ao lado da dela, e se ele decidir segui-la, abrirá um sorriso, e talvez assim, suas vidas voltem a se encontrar.
